quinta-feira, 9 de agosto de 2018

SERENDIPITY REPUBLIC - Gazeta

SECRETARIA DE SEGURANÇA PEDE A PF QUE INVESTIGUE AÇÕES DE PRESOS DA OPERAÇÃO FURACÃO NO PARANÁ 

 Em Gazeta doPovo Online [24/04/2007] [14h28]  

 

Delazari está encaminhando à PF nomes de empresas, sócios,advogados e também uma relação de juízes e desembargadores responsáveis pelaliberação temporária da exploração dos bingos no Paraná





"A Secretaria de Segurança Pública do Paraná (Sesp) enviou nesta terça-feira uma série de documentos para a Polícia Federal com informações, relevantes na visão da secretaria, para a condução das investigações da "Operação Hurricane"(Furacão) - deflagrada no dia 13 de abril (2007), contra um esquema de exploração de jogos ilegais envolvendo o poder judiciário. Entre os magistrados presos na ação da PF, está o desembargador Ricardo Regueira, do Tribunal Federal Regional da 2.ª Região, que teria ligação à concessão de liminares autorizando a reabertura de duas casas de bingo em Curitiba em maio de 2006. A Sesp suspeita que Regueira teria sido o responsável por argumentar para que o desembargador Sérgio Schwaitzer, relator do processo, mudasse seu voto e concedesse a liminar para as casas de bingo do Paraná.

Por conta desta suposta ligação do esquema com as casas de bingo do Paraná, com empresários, advogados e outros envolvidos com a exploração do jogo ilegal no estado, o secretário, e promotor de justiça sub judice, Luiz Fernando Delazari está encaminhando à PF nomes de empresas, sócios, advogados e também uma relação de juízes e desembargadores responsáveis pela liberação temporária da exploração dos bingos no Paraná."

Gazeta doPovo Online [24/04/2007]


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

SERENDIPITY - ACTIO AB INITIO

 TJ do Paraná vai avaliar denúncia de fraude em concurso

O ministro do STJ, Paulo Medina, segundo a Veja, teria interferido para que o seu genro, o advogado mineiro Leonardo Bechara Stancioli, fosse aprovado
Denise Drechsel  Jornal Gazeta do Povo
 

   
   O Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná informou nesta segunda-feira (23/4/07) que vai avaliar a denúncia de fraude em concurso para juiz substituto realizado no ano passado. De acordo com a revista Veja deste último domingo, o ministro do Supremo Tribunal de Justiça, Paulo Medina, investigado na Operação Furacão, da Polícia Federal, teria interferido para que o seu genro, o advogado mineiro Leonardo Bechara Stancioli, fosse aprovado. 
   Segundo a revista, o inquérito da operação Furacão contém gravações onde Medina garante ter conseguido que a sustentação oral do concurso fosse feita por "outra pessoa" e que a banca já estava informada sobre o seu genro. Leonardo passou em 17.º lugar, informação publicada no edital do TJ em 28 de novembro do ano passado (2006).

terça-feira, 7 de agosto de 2018

SERENDIPITY REPUBLIC - ISTOÉ

O Esquema de Bertholdo
Revista ISTOÉ (edição nº1917) de 19 de julho de 2006.
Hugo Studart e Rudolfo Lago. Colaborou Ana Carvalho.


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Amigo de poderosos e cotado para o Ministério, o lobista Roberto Bertholdo criou um milionário propinoduto na Justiça do Brasil
 
Em uma cela da Polícia Civil, no Paraná, encontra-se Roberto Bertholdo, um advogado articulado, bem educado e sedutor. Preso há oito meses, ele é acusado pelos crimes de tráfico de influência, compra de sentenças judiciais e lavagemde dinheiro. Antes de ir parar no xadrez, Bertholdo era conselheiro da estatal Itaipu Binacional, circulava com desenvoltura nos bastidores dos Três Poderes e estava cotado até para ser ministro do Desenvolvimento ou do Esporte, na última reforma ministerial, na cota do PMDB. Mas o mundo de Bertholdo caiu. Em novembro passado (2005) ele foi detido após investigação do Ministério Público. Esta semana, ISTOÉ pôs as mãos em um calhamaço de mais de 500 páginas que descrevem os detalhes do esquema que levou Bertholdo à prisão. Trata-se da Ação Penal Pública (Procedimento Criminal) 2005.70.00.029546-2, que corre na 2ª Vara Criminal de Curitiba, em segredo de Justiça. Os delitos cometidos por Bertholdo, segundo aponta a ação do Ministério Público, envolvem ministros e ex-ministros do Superior Tribunal de Justiça. E mais: o esquema de lobby para venda de sentenças seria administrado por alguns dos filhos desses ministros. Para o Ministério Público, Bertholdo era o pivô, o elo entre clientes e o Judiciário.
A ação, resultado de uma força-tarefa do Ministério Público com a Polícia Federal para investigar evasão de divisas e lavagem de dinheiro, expõe o intestino de um grande esquema de corrupção na Justiça – e, de quebra, muitas histórias paralelas de mensalão, falcatruas no governo, tortura física e sexo. No caso mais grave, ponto central da denúncia de cinco procuradores contra Bertholdo, ele é acusado de oferecer suborno a ministros do STJ para reverter um caso em favor de um cliente. Bertholdo era advogado do empresário e político paranaense Antônio Celso Garcia. Nas eleições de 2002, Tony Garcia, como é conhecido no Paraná, era deputado estadual e candidato ao Senado pela segunda vez – e Bertholdo era seu suplente. Para que pudesse se candidatar, Garcia precisava de um habeas corpus que trancasse um processo no qual era acusado de crime contra o sistema financeiro por envolvimento numa fraude do consórcio Garibaldi, liquidado pelo Banco Central em 1994. Bertholdo foi então contratado para “limpar” o nome de Garcia. No dia 1º de agosto de 2002, ele impetrou habeas corpus em favor de Garcia. É aí que começa a história de corrupção contada pelo Ministério Público, a partir da denúncia inicial de um ex-sócio de Bertholdo, Sérgio Costa Filho.
Por conta de desentendimentos sobre dinheiro, Bertholdo chegou a espancar e torturar Sérgio Costa Filho, que deu o troco fazendo a denúncia. De acordo com a denúncia de Sérgio ao MP, Bertholdo pediu a Tony Garcia R$ 600 mil, dinheiro que seria usado para que o então ministro Vicente Leal concedesse liminar no pedido de habeas corpus. De fato, no dia 2 de agosto, a liminar saiu, por decisão do ministro Vicente Leal e, com ela, Tony Garcia pôde concorrer às eleições. No dia 8 de agosto, Tony Garcia emitiu um cheque de sua empresa, a Maggiore Comércio de Combustíveis Ltda., que foi depositado na conta da empresa de Bertholdo, a Antecipa Consultoria. Aos poucos, o valor foi saindo da conta em vários saques em dinheiro vivo, feito por pessoas como o motoboy Luiz Marcelo Alves.
Uso de laranjas – O MP desconfia que Bertholdo usou de “laranjas” para sacar o dinheiro e depois entregá-lo aos ministros envolvidos na operação em favor de Tony Garcia. Segundo a denúncia feita por Sérgio Costa Filho aos procuradores havia outras pessoas, além do ministro Vicente Leal, envolvidas na venda da sentença. OtávioFischer e Pedro Aciolli, filhos do ministro do STJ Félix Fischer e do ex-ministro Pedro da Rocha Aciolli, teriam intermediado a operação no Judiciário em Brasília. Após a concessão da liminar, nova operação de dinheiro teria sido feita, conforme mostra a ação. Dessa vez, para assegurar um resultado favorável no julgamento do mérito do pedido de habeas corpus. Sérgio Costa Filho afirmou em seu depoimento que Bertholdo pediu a Tony Garcia R$ 500 mil para garantir o resultado. Tony, porém, conseguiu baixar a quantia para R$ 180 mil. Para o julgamento, Bertholdo trabalhou com a possibilidade de o ministro relator Paulo Galotti negar o habeas corpus. A segunda estratégia para favorecer Tony Garcia, porém, seria o ministro Paulo Medina pedir vistas do processo, postergando a decisão final. Foi o que efetivamente ocorreu no dia 7 de junho de 2004.
É por envolver autoridades do Poder Judiciário, como se vê acima, que o processo corre em segredo de Justiça. Os ministros e seus filhos envolvidos ainda não foram ouvidos no processo. A acusação do Ministério Público ajuda a explicar, porém, como políticos, a despeito dos processos judiciais que sofrem, conseguem se manter no páreo eleitoral. Há duas semanas, por exemplo, o Tribunal de Contas da União divulgou uma lista com nada menos que 2,9 mil políticos e administradores que, por conta de seus atos, estariam inelegíveis. E muitos deles continuam disputando as eleições de outubro.
Roberto Bertholdo não é um preso qualquer. Sua influência em Brasília remonta do governo Collor, mas foi no governo Lula que ele cresceu de forma exponencial. Primeiro foi nomeado conselheiro de Itaipu, se aproximou de grandes fornecedores da Estatal e, ato contínuo, sua casa em Brasília, no bairro do Lago Sul, virou um discreto reduto de conversas entre parlamentares, empresários e autoridades públicas. Em seus negócios privados, Bertholdo virou o representante junto ao Banco Central do espólio do banco Bamerindus, que sofreu intervenção e foi vendido há uma década para o inglês HSBC. Saiu-se tão bem na causa que foi adquirindo participações da família Andrade Vieira, fundadora do banco, até se tornar dono de quase 70% dos direitos sobre o Bamerindus. Em fins do ano passado (2005) a família Magalhães Pinto o contratou para tentar terminar também com a intervenção do Banco Nacional, anexado pelo Unibanco – e desta forma liberar R$ 6 bilhões retidos no BC. Nessa época, aos 43 anos, Bertholdo queria finalmente sair das sombras. Articulava com seu amigo do Paraná, o deputado José Borba, líder do PMDB, uma nomeação como ministro do governo Lula, do Esporte ou do Desenvolvimento. Bertholdo foi abatido pela prisão, durante as articulações da reforma ministerial.
Festa para juízes – O calhamaço produzido pelo Ministério Público e pela Justiça, porém, não pára nessa denúncia de compra de sentença no Poder Judiciário. Bertholdo começou a chamar a atenção dos Procuradores da República que investigavam casos de lavagem de dinheiro sujo e evasão de divisas a partir das contas CC-5 doBanestado. Primeiro descobriram remessas suspeitas de Bertholdo para uma conta em Luxemburgo; depois monitoraram movimentações entre a conta no paraíso fiscal e uma conta do Itaú em Brasília, na agência do Lago Sul, aberta em nome de um certo Anselmo, que mais tarde os procuradores descobriram ser o motorista de Bertholdo. Nessa época, Bertholdo circulava com uma frota de automóveis importados – em Brasília, mantinha dois Audi A-6. Ocorreram então algumas coincidências. Primeiro, Tony Garcia foi apanhado pela força-tarefa doBanestado. Ficou preso entre dezembro de 2004 e fevereiro de 2005. Mas acertou com o MP entrar para o programa de delação premiada. Recebeu telefones grampeados pela PF e passou a usar um gravador colado ao corpo em suas conversas com pessoas suspeitas. Bertholdo era seu principal alvo. Ao mesmo tempo, ele era também monitorado por Sérgio Costa, sócio de Bertholdo. Suspeitando que estava sendo monitorado, Bertholdo acusou Sérgio de desviar R$ 900 mil e de instalar grampos telefônicos e câmaras ocultas no escritório que ambos mantinham em Curitiba. Segundo relatou aos procuradores, Sérgio chegou a ser preso e algemado por Bertholdo, com a ajuda de seu segurança e de dois homens que se diziam policiais civis. De acordo com Sérgio, Bertholdo o espancou e o torturou com choques elétricos por 14 horas para que revelasse onde estariam os R$ 900 mil. Depois Sérgio foi encaminhado ao MP para revelar tudo o que sabia sobre Bertholdo. Em seu depoimento, só se refere ao ex-sócio como “meliante”.
Dos depoimentos de Tony Garcia e Sérgio Costa, assim como das gravações telefônicas, as autoridades produziram um conjunto de provas tão impressionantes sobre o funcionamento do poder federal quanto as revelações que há um ano vieram à tona com as histórias que envolvem Marcos Valério e Delúbio Soares. Uma das confidentes de Bertholdo, com quem costumava manter longas conversas ao telefone, era Mirlei de Oliveira, cafetina predileta das autoridades de Curitiba. Numa das gravações, ela conta que estaria sendo pressionada a revelar detalhes das suas relações com Bertholdo. Como festinhas que ele promoveria para juízes em hotéis com as garotas de Mirlei. Numa das conversas, ela se refere a uma festa específica, ocorrida no Hotel Bourbon, em Curitiba. “Fiz tanta festa para atender juízes, que não sei que festa é essa”, responde ela.
Remessas para Luxemburgo – Os grampos telefônicos também descortinam novos detalhes do esquema do mensalão. Sabe-se hoje que Marcos Valério era o principal operador do mensalão junto a deputados do PT, PL e PPB, três das legendas da base aliada do governo. De acordo com o MP, Roberto Bertholdo era o operador do mensalão junto ao PMDB – e 51 dos 81 deputados do partido receberiam dinheiro do lobista para votar com o governo. O advogado teria entrado na operação através do deputado paranaense José Borba, líder do PMDB na Câmara. No início do governo, Bertholdo foi nomeado conselheiro de Itaipu na cota de Borba. Segundo o processo, ele ajudava o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares a operar um esquema de remessa de dinheiro para Luxemburgo. Também teria operado, a partir de Itaipu, para irrigar com recursos as campanhas de candidatos do PT a prefeituras do interior do Paraná, como Maringá, Londrina e Cruzeiro d’Oeste.
Uma das gravações que estão no processo corrobora uma história que chegou a circular logo que o esquema do mensalão foi descoberto. Teria ocorrido uma reunião da qual participaram os então líderes do PP, José Janene, do PL, Sandro Mabel, o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto (SP), e o líder do governo na Câmara, o petista Arlindo Chinaglia. Numa conversa com Tony Garcia, gravada por ele próprio, Bertholdo conta que durante essa reunião Janene e Mabel teriam dito que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conhecia todos os detalhes do esquema de compra de deputados da sua base de governo. Mais adiante, ainda segundo o relato de Bertholdo para Tony Garcia, Sandro Mabel teria dito: “Só eu falei umas 20 vezes pro presidente.”
A história de Bertholdo é ilustrativa para entender as relações incestuosas do poder. Ele começou a freqüentar Brasília há 20 anos, jovem advogado, levado pelo sogro de então, o deputado Erwin Bonkoski, um dos líderes do Centrão na era Sarney. A primeira vez que se envolveu com política foi em 1990, quando disputou o mandato de deputado estadual pelo extinto PRN de Fernando Collor – nesse pleito, Tony Garcia foi candidato a senador. Derrotado nas urnas, Bertholdo voltou a Brasília logo depois, em 1991, como lobista da empreiteira do sogro, a Tibagi, na época enrolada com cinco processos na Receita Federal. Durante o governo Collor, Bertholdo se tornou o melhor amigo do comandante Jorge Bandeira, piloto e sócio de PC Farias. Desde então freqüentador das melhores festas da corte, conseguiu se tornar advogado junto aos tribunais superiores de alguns pesos pesados da política paranaense, como os deputados José Janene e José Borba. Chegou a Itaipu em junho de 2003, na cota de Borba, mas por indicação junto ao Planalto do amigo Daniel Godoy, advogado ligado à cúpula do PT. No ano seguinte, quando surgiu o vídeo em que Waldomiro Diniz pedia propina ao bicheiro Carlinhos Cachoeira, Bertholdo foi sondado pelo amigo petista para ocupar seu lugar, como subchefe do Gabinete Civil do Planalto. Recusou por achar que ficaria muito exposto. Desde novembro, esse advogado ambicioso ocupa uma cela no Centro de Operações Especiais da Polícia Civil, em Curitiba. Seus processos tramitam rápido. Aos procuradores, Bertholdo diz que gostaria de entrar no programa de delação premiada. O problema é que, na hora de falar, continua jurando inocência e contando a versão de que não deu nenhuma propina aos ministros do STJ. Dias atrás, a um dos poucos amigos que restaram, Bertholdo disse que está com muito medo de morrer.Sou hoje o maior arquivo vivo do País”, explicou. Seu amigo lhe deu um único conselho: “É melhor contar logo tudo o que você sabe.”."
 IstoÉ processada por matéria na Justiça do DF, segundo informou o ConJur e Migalhas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

SERENDIPITY REPUBLIC - VEJA

Furacão da Limpeza
Revista Veja (Edição nº 2005) 24 de abril de 2007.
Liberdade Constitucional de Informação (Editora Abril).
Alexandre Oltramari.


"Na maior devassa da história do Judiciário, a polícia prende juízes sob suspeita de vender decisões – e dá início a uma faxina que tem tudo para fazer bem ao país.
Na madrugada de 23 de novembro (2006), uma quinta-feira, um delegado e dois agentes da Polícia Federal entraram discretamente num escritório de advocacia no número 121 da Rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro. A sala pertence ao escritório Borges, Beildeck e Medina Advogados, e um dos sócios é Virgílio Medina, irmão do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Paulo Medina. Durante uma hora e quinze minutos, numa ação sem precedentes na crônica policial brasileira, os policiais fizeram filmagens, tiraram fotografias e, com uma máquina portátil, fotocopiaram documentos, planilhas, anotações. Encerrado o trabalho, fecharam silenciosamente a porta do escritório e saíram sem deixar pista de sua passagem pelo 6º andar do edifício. Com ações inéditas como essa, a Operação Hurricane (furacão, em inglês), que levou 25 pessoas à cadeia, deu início à maior devassa já sofrida pela Justiça – e, no escritório da Rua do Ouvidor, encontrou fortes evidências de venda de decisões judiciais, num esquema criminoso que pode ter chegado ao STJ, a mais alta corte do país para assuntos não-constitucionais.
Na sexta-feira passada (20/4/2007), o bote sobre a Justiça continuou com a OperaçãoTêmis, nome da deusa da Justiça na mitologia grega. Desta vez, cerca de 300 policiais federais cumpriram setenta mandados de busca e apreensão e vasculharam o gabinete de três desembargadores do Tribunal Regional Federal em São Paulo – Roberto Haddad, Nery da Costa Júnior e Alda Basto. Além deles, os agentes federais estiveram no gabinete de dois juízes da Justiça Federal paulista, Djalma Moreira Gomes e Maria Cristina Cukierkorn. A suspeita investigada em relação aos cinco magistrados é a mesma: a existência de um esquema clandestino de venda de sentenças e liminares, quase sempre destinadas a beneficiar empresários que exploram o jogo ilegal, sobretudo casas de bingo que operam com máquinas de caça-níqueis, o que é proibido por lei desde 2000. O esquema incluiria o pagamento de mesadas de 20.000 a 30.000 reais a desembargadores, juízes e outros funcionários públicos. Até a noite de sexta-feira, o único dos cinco magistrados a falar sobre o assunto foi a juíza Maria Cristina Cukierkorn. Ela interrompeu a licença-maternidade, voltou ao seu gabinete e, por meio da assessoria de imprensa, declarou-se "perplexa" com as investigações. Afirmou que não faz idéia do motivo de ter sido incluída na operação.
No Brasil, o governo federal e o Congresso Nacional já foram alvo de amplas investigações desde que o país voltou ao regime democrático, em 1985. No Executivo, aconteceu o impeachment de um presidente e a recente demissão de ministros envolvidos em ilicitudes. No Legislativo, descobriu-se a existência da máfia dos anões que assaltava o Orçamento da União e, mais recentemente, vieram à luz os mensaleiros e sanguessugas. Mas é a primeira vez que uma devassa se realiza na banda podre da Justiça – o que é uma notícia alvissareira para o país. Já houve casos envolvendo magistrados corruptos, como os desvios de dinheiro na construção do TRT que levaram o juiz Nicolau dos Santos Neto à cadeia em 2000 ou a venda de sentenças que resultou na prisão do juiz João Carlos da Rocha Mattos em 2003, mas nunca uma ofensiva policial envolvera magistrados em diversas instâncias da Justiça, sugerindo a existência de uma rede criminosa. Só na Operação Hurricane, três desembargadores foram parar atrás das grades – e o ministro Paulo Medina, do STJ, mesmo sem ser preso, foi parar no olho do furacão. É a mais alta autoridade do Judiciário sob investigação.
O ministro Paulo Medina é suspeito de vender liminares com a ajuda de seu irmão, o advogado Virgílio Medina. Com gravações telefônicas, escutas ambientais, filmagens e fotografias, a Polícia Federal documentou Virgílio Medina vendendo três decisões judiciais do irmão. Uma delas, a favor de empresários de casas de bingo no Rio de Janeiro, custou, segundo a polícia, 600.000 reais. "Sou um homem rigorosamente de bem, da prática do bem que realizo em toda a minha vida", disse o ministro Medina numa nota divulgada no domingo passado. No inquérito de 2.878 páginas, ao qual VEJA teve acesso, Virgílio aparece negociando a propina com o advogado Sérgio Luzio Marques de Araújo, da empresa Betec Games, que tinha 900 máquinas caça-níqueis apreendidas pela Justiça. A empresa queria liberá-las. Em dezenas de telefonemas e três encontros pessoais, Virgílio e o advogado da Betec discutem valores. No começo, era 1 milhão de reais. "Tem 20% de entrada", diz Virgílio, num dos diálogos grampeados. O preço caiu para 600.000 reais num telefonema de seis minutos no dia 1º de agosto do ano passado. Duas semanas depois, o ministro Paulo Medina deu uma liminar cancelando a apreensão das máquinas. Era uma decisão tão esdrúxula que chamou a atenção da PF e acabaria revogada mais tarde no Supremo Tribunal Federal.
Quando entraram no escritório de Virgílio Medina durante a madrugada, os policiais encontraram mais indícios de crime. Ali, havia anotações sobre a liminar de 600.000 reais. Acharam mais. Antes, em conversas telefônicas monitoradas, os agentes desconfiaram que Virgílio estava negociando um adiamento num processo do delegado Edson de Oliveira, o mesmo que prendeu PC Farias, que foi condenado, em primeira instância, por corrupção em 1995. No escritório, havia anotações sobre o caso do delegado – que se encontra parado no STJ, nas mãos do ministro Medina. Na devassa noturna, os policiais ainda acharam dois lotes de documentos internos do STJ, que só podem ser obtidos por funcionários da corte. Numa declaração de imposto de renda, de 2005, constataram que os irmãos tinham um elo financeiro: Virgílio fez um suposto empréstimo de 440.000 reais ao ministro. Diz Antônio Carlos de Almeida Castro, advogado do ministro: "O dinheiro foi declarado à Receita Federal pelos dois. O ministro está tentando vender dois terrenos em Minas Gerais para pagar o irmão".
Aos 64 anos, membro do STJ desde 2001, Medina não apareceu para trabalhar nos últimos dias, abatido com as denúncias. Nos telefonemas do ministro, não consta uma única conversa com os empresários de bingo e, nos diálogos com seu irmão, não há menção à venda de decisões. Existe, portanto, a possibilidade de que Virgílio mercadejasse liminares à revelia do irmão. Mas o inquérito da Operação Hurricane traz outro caso constrangedor para o ministro. Os grampos sugerem que ele interferiu de forma irregular para que seu genro, o advogado mineiro Leonardo Bechara Stancioli, fosse aprovado num concurso público para juiz no Paraná. Nos diálogos gravados, o ministro diz que não pode "abrir o jogo" por telefone, afirma que consegue que a sustentação oral do concurso seja feita por "outra pessoa", informa que já conversou com os desembargadores e que a banca já fora devidamente informada sobre seu genro. "O esquema tá montado", diz ele. "A missão está cumprida, viu, Leo?". O genro de Medina foi aprovado em 17º lugar no dia 28 de novembro do ano passado. O resultado do concurso foi homologado duas semanas depois.

A Operação Hurricane foi uma das maiores da história policial, mobilizou 400 agentes e apreendeu 2 toneladas de documentos, em papel e meio magnético, além de capturar 19 armas, 51 veículos de luxo, 523 jóias, 160 relógios de marcas famosas e muito dinheiro em cheque e moeda sonante, no valor de 10 milhões de reais. Numa cena da operação, filmada pelos próprios policiais, aparece um agente derrubando uma parede falsa no escritório de um advogado do Rio e, atrás dela, surgem 4 milhões de reais em dinheiro vivo. Um policial exclama, entusiasmado: "Muita grana, moleque!". Mais do que pelo robusto resultado das apreensões, a investigação policial chama atenção pela ousadia da máfia dos bingos – formada por empresários, advogados e pela velha cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro, como os veteranos Aniz Abrahão David, Antônio Petrus Kalil, o "Turcão", e Ailton Guimarães Jorge, o "Capitão Guimarães", todos presos. Além das suspeitas de que pode estar envolvido um ministro do STJ, a investigação descobriu que os criminosos chegaram a tentar aproximar-se até da presidente do Supremo Tribunal Federal, a ministra Ellen Gracie, que tomou uma decisão contrária aos interesses da máfia. Nas conversas monitoradas, fica claro que nada conseguiram.
Nos seus primeiros desdobramentos, as operações policiais estão concentradas nos Tribunais Regionais Federais, cortes que tratam da legalidade do jogo – assunto com uma história tão controvertida no país que já sofreu influência até de primeira-dama (veja o quadro). Em São Paulo, no âmbito da Operação Têmis, os policiais vasculharam o gabinete de três desembargadores na Avenida Paulista, em busca de indícios da venda de decisões para casas de bingo. No Rio de Janeiro, na Operação Hurricane, monitoraram os passos de dois desembargadores do TRF e conseguiram autorização para prender ambos. Um é o desembargador José Eduardo Carreira Alvim, cujo genro, Silvério Nery Júnior, foi flagrado negociando liminar do sogro por 1 milhão de reais com emissários de bingueiros. Além disso, o genro recebeu de presente da máfia um Mercedes-Benz de mais de 300.000 reais, foi fotografado embolsando dinheiro de bingueiro num shopping do Rio de Janeiro e grampeado em conversas com o sogro. Numa delas, Carreira Alvim explica que quer seu quinhão em moeda sonante. "Aquela idéia sua..., parte em dinheiro, tá?", diz ele ao seu genro, que responde: "Pode deixar, tá tudo na cabeça aqui, não se preocupa". Carreira Alvim, em decisão inteiramente descabelada e sem amparo legal, concedeu a tal liminar – logo cassada.
O outro desembargador preso é José Ricardo de Siqueira Regueira, o mais discreto e desconfiado dos investigados, mas que, apesar de todos os cuidados, já apareceu envolvido na venda de sentença para a máfia que adultera combustíveis. Para enfrentar a investigação de agora, Regueira montou até um sistema antiespionagem em seu gabinete, impedindo a instalação de escutas ambientais. Ainda assim, foi fotografado em animados almoços em restaurantes com o advogado Jaime Dias, que faz o papel de trem pagador da máfia dos bingos, e acabou flagrado na escuta instalada no gabinete do seu colega Carreira Alvim – um diálogo que mostrou indícios eloqüentes de que ambos atuavam em conjunto. Um terceiro desembargador também foi preso. É Ernesto da Luz Pinto Dória, que despacha no Tribunal Regional do Trabalho, em Campinas. Ele é o oposto de Regueira. Falastrão, foi flagrado em conversas prometendo milagres jurídicos e fazendo lobby junto a assessores de desembargadores, aos quais oferecia relógios e viagens. Num caso, oferece regalos a um assessor para que ele pressione o chefe, um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio, a tomar determinada decisão. Ao seu cliente, um advogado que começa a desconfiar dos seus serviços, o desembargador faz autopropaganda. "Não é para ter medo. Quando a Polícia Federal estourar o escritório de vocês, aí pode ter medo. Confie no meu taco. Não fui feito desembargador federal nas coxas", diz. Por esse lobby, que acabou não dando certo, o desembargador foi pilhado pela polícia cobrando 25.000 reais.
Apesar da amplitude do bote policial sobre a banda podre da Justiça, ações ainda mais ousadas estão por vir. VEJA apurou que está nas mãos do ministro do STF Joaquim Barbosa um pedido de prisão de ministros do STJ supostamente envolvidos com a venda de sentenças. O caso diz respeito ao advogado e lobista RobertoBertholdo, preso em Curitiba no fim de 2005. Bertholdo foi pilhado numa escuta telefônica tramando a compra de uma liminar, por 600.000 reais, do ministro Vicente Leal, do STJ. Leal se aposentou recentemente sob suspeita num outro caso, o de venda de decisões judiciais a traficantes. No grampo, Bertholdo antecipa ao seu cliente as decisões que serão tomadas – e, mais tarde, tudo acontece do modo como prevê. Diz, por exemplo, que Vicente Leal dará uma decisão favorável ao cliente. E isso acontece. Depois diz que, quando a decisão fosse analisada pelos demais magistrados, o ministro Paulo Medina entraria em ação, retardando o processo. E isso também acontece. As investigações colheram a suspeita de que Bertholdo tinha ligações com outro advogado, Octávio Fischer, que vem a ser filho de Felix Fischer, ministro do STJ, o mesmo que, na semana passada, proibiu a Operação Têmis de prender magistrados em São Paulo.
Nada é mais fulminante para a credibilidade do Judiciário do que a suspeita sobre a legitimidade de suas decisões – que, num estado de direito democrático, são soberanas e devem ser cumpridas por todos. Mas é preciso compreender que, apesar da vastidão das operações policiais, a Justiça brasileira é um poder íntegro e correto. É a sua banda podre e corrupta que está sendo exposta à luz do dia – e isso é altamente positivo. Tanto que as operações policiais aconteceram com o apoio decisivo da própria Justiça. No caso da Operação Hurricane, por exemplo, tudo começou num incidente em Niterói no qual uma juíza autorizou a polícia a usar escutas telefônicas. Agora, o caso é conduzido pelo ministro Cezar Peluso, do Supremo Tribunal Federal, que tem trabalhado em sintonia com a Polícia Federal. "As operações cortam o Judiciário na própria carne", afirma o juiz Rodrigo Collaço, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). "Mas considerar que o Judiciário, que tem 13.000 juízes, está podre por causa de meia dúzia de magistrados não condiz com a verdade."
Examinando-se o quadro geral da Justiça, não existe nenhum sinal de que a corrupção esteja se expandindo de modo alarmante entre os magistrados. As operações da semana passada podem dar essa impressão, mas elas devem ser atribuídas muito mais a um salto de qualidade no trabalho policial. Na Operação Hurricane, por exemplo, os agentes federais usaram algumas das técnicas mais avançadas de investigação para cercar a quadrilha. O aparato inclui a instalação de escutas ambientais, filmagens e o monitoramento de investigados em tempo real, além de discretas incursões noturnas em escritórios, com a devida autorização judicial, sem deixar pistas. O aspecto que deve chamar a atenção das autoridades do Judiciário é que tudo começou no âmbito policial, um sinal inequívoco de que a própria Justiça não dispõe de mecanismos eficazes para detectar a corrupção entre os magistrados. Nos quinze anos em que trabalhou em tribunais em São Paulo, Luiz Flávio Gomes, juiz aposentado e ex-professor da Universidade de São Paulo (USP), diz que jamais viu uma investigação interna punir um juiz. "As corregedorias funcionam precariamente, sem estrutura, e são dominadas pelo corporativismo. Investigações contra escreventes costumam ir a fundo, mas as que envolvem juízes são sigilosas e quase sempre são arquivadas", afirma. O próximo passo será fazer com que a Justiça comece a trabalhar no sentido de se autofiscalizar com eficiência – para o bem dos magistrados, cuja maioria é formada por profissionais honestos, e para o bem do Brasil, que precisa acreditar na Justiça que tem.”

Revista Veja (Edição nº 2005) 24 de abril de 2007.
http://veja.abril.com.br/250407/p_072.shtml
https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/operacao-furacao-e-cuidados/


Jornal da Gazeta:

Editora Abril/VEJA respondeu demanda judicial, com êxito no litígio.